Iniciada em 2021, a revitalização da Rua 33, na Vila Santa Cecília, acumula mudanças contratuais e atrasos. Auditoria reúne valores oficiais, pagamentos parciais identificados e perguntas sobre o custo final da obra em Volta Redonda.
Em setembro de 2021, a Prefeitura de Volta Redonda apresentava a revitalização da Rua 33, na Vila Santa Cecília, como um investimento de aproximadamente R$ 3,5 milhões para modernizar a via, melhorar calçadas, acessibilidade e circulação de pedestres. Cinco anos depois, a obra passou por paralisação, substituição da empresa executora, nova licitação, serviços provisórios e sucessivas mudanças de prazo e de planilha. A pergunta que falta responder em detalhes não é apenas quando ficará pronta: quanto foi efetivamente pago, por quais serviços e com que resultado?
O VR Abandonada analisou publicações do Diário Oficial, anúncios da administração municipal, registros parciais do Portal da Transparência e reportagens locais. O material sustenta uma cobrança de prestação de contas, mas não autoriza tratar valor contratado, dotação orçamentária, empenho e pagamento como se fossem a mesma coisa.
Da primeira contratação à nova licitação
A contratação de 2021 com a Irmãos Vasconcelos Ltda.-EPP foi registrada por R$ 3.388.297,75, conforme documentos oficiais catalogados na auditoria. A Prefeitura reconheceu em outubro de 2022 que a saída da empresa interrompera os trabalhos e que seria necessária uma nova licitação. Durante o intervalo, anunciou intervenções emergenciais nas calçadas para reduzir os transtornos.
Em 27 de dezembro de 2022, o Diário Oficial homologou a Concorrência Pública 014/2022, processo 9416/2022, em favor do Grupo VR Comércio e Serviço Ltda., no valor de R$ 18.131.436,55. O Contrato 031/2023 foi assinado em janeiro de 2023, segundo os atos reunidos no dossiê. A diferença entre os R$ 3,39 milhões de 2021 e os R$ 18,13 milhões de 2023 não pode ser apresentada como simples aumento do preço da mesma obra: o escopo, as redes e as soluções previstas mudaram e as planilhas integrais precisam ser comparadas.
O asfalto provisório também teve contrato próprio
A auditoria identificou ainda a Tomada de Preços 038/2023, processo 16894/2023, vinculada ao Contrato 425/2023 com a Luquip Terraplenagem Ltda., por R$ 270.973,08 para pavimentação provisória. Na consulta de 20 de outubro de 2026 ao Portal da Transparência, o empenho 2095/2023 aparecia com o valor integral classificado como liquidado e pago. Esse registro não demonstra, sozinho, quanto do revestimento foi posteriormente removido, refeito ou aproveitado. Responder exige boletins de medição, ordens de serviço e identificação dos trechos.
Aditivos: não foram somente prazos
Os extratos reunidos na auditoria registram prorrogações, mas também reajuste de preços e alterações de quantitativos e serviços, como ocorreu em aditivos de 2024 e 2025. O nono termo aditivo, assinado em março de 2026, voltou a tratar de prazo. Em 17 de outubro de 2026, a Folha do Aço noticiou um 11º aditivo, assinado em 29 de setembro, relativo à retificação de cláusula contratual. O texto integral desse instrumento e os efeitos da retificação ainda não foram confirmados na apuração.
A imprensa local informou que o contrato principal já havia superado R$ 20,5 milhões. É um patamar atribuído à cobertura jornalística, e não um saldo final de execução confirmado por esta auditoria. Para determinar o valor contratual vigente, é necessário conferir todos os aditivos, supressões, reajustes e apostilamentos; para saber quanto saiu dos cofres, é preciso conciliar medições, liquidações e pagamentos.
O que os registros de pagamento permitem afirmar
Na consulta realizada em 20 de outubro de 2026, seis empenhos do Grupo VR com referências explícitas à Rua 33 — 1883/2023, 2190/2023, 1343/2024, 346/2024, 977/2024 e 94/2026 — somavam R$ 8.798.761,09 em valores empenhados, R$ 805.079,04 em anulações e R$ 7.985.501,91 classificados no portal como liquidados/pagos. São registros parciais identificáveis pelo nome da ação, não a totalidade das despesas da obra. Linhas com descrições orçamentárias genéricas, especialmente de 2025, não foram atribuídas à Rua 33 sem documento de vínculo.
Esses valores refletem a consulta histórica de 20 de outubro, não uma extração atualizada do banco em tempo real. Não se pode concluir que o município pagou apenas esse montante nem somar as fases de empenho, liquidação e pagamento como se fossem gastos diferentes. Uma auditoria conclusiva precisa das notas fiscais, ordens bancárias, medições e atestes correspondentes.
Promessas de conclusão e impacto na cidade
Em janeiro de 2025, a Prefeitura anunciou uma nova organização para a etapa final e retomada em fevereiro. Em agosto de 2026, a Folha do Aço noticiou que a reforma seguia em andamento e registrou o reconhecimento público, pelo prefeito Antônio Francisco Neto, de que a Rua 33 havia causado desgaste à administração. A reportagem relatou que moradores e comerciantes conviviam com intervenções na área próxima à Rua 18-B e ao Córrego Brandão. A situação física atual de cada trecho e eventual termo de recebimento definitivo não foram confirmados por vistoria independente nesta apuração.
Há um contraste relevante entre a promessa de que a obra seria organizada para minimizar os efeitos sobre o comércio e as sucessivas notícias de novas frentes, interdições e atrasos. Para medir esse impacto com rigor, também são necessários relatos identificáveis e documentação de cada fase, sem transformar queixas em conclusões técnicas automáticas.
As respostas que o poder público ainda deve
- Valor total vigente do Contrato 031/2023, com cada aditivo, reajuste, supressão e inclusão de serviço, inclusive os termos 10º e 11º.
- Planilha de todos os empenhos, liquidações e pagamentos relacionados à Rua 33, inclusive os classificados em ações genéricas, com notas fiscais e ordens bancárias.
- Boletins de medição e relatórios de fiscalização para confirmar os serviços realmente executados e a ligação entre os contratos de 2021, 2023 e o revestimento provisório.
- Cronograma físico-financeiro atualizado e documentos que expliquem paralisações, alterações de projeto e a situação das redes subterrâneas.
- Identificação das licenças e autorizações aplicáveis às intervenções nas proximidades do Córrego Brandão e comprovação da entrega e do recebimento definitivo, se existentes.
O VR Abandonada mantém uma relação organizada desses documentos para pedidos de acesso à informação. Até o fechamento desta primeira versão, ainda não haviam sido enviados pedidos formais nem solicitações específicas de manifestação à Prefeitura, ao Grupo VR ou à Luquip sobre as perguntas desta reportagem. As partes poderão encaminhar esclarecimentos, documentos e respostas para inclusão em atualizações datadas, que preservarão o histórico desta investigação.
O problema não se encerra na legalidade do contrato
Uma obra pode reunir procedimentos formais de contratação e, ainda assim, merecer questionamento público sobre planejamento, eficiência, prioridades e custo social. Na Rua 33, os documentos já demonstram a extensão administrativa da intervenção; o que falta é oferecer à população uma prestação de contas capaz de relacionar cada real àquilo que foi efetivamente executado. Sem isso, a cidade continua obrigada a confiar em anúncios e prazos que mudam, em vez de poder verificar o resultado da obra.
Esta é uma investigação em acompanhamento. A existência de aditivos, paralisações e contratos distintos não demonstra, por si só, fraude, superfaturamento ou desvio de recursos. O objetivo é reunir provas, corrigir informações quando necessário e cobrar os documentos que permitam responder ao que ainda está em aberto.
Histórico desta investigação
- Publicação inicial
Primeira versão publicada com contratos, aditivos, cronologia e rastreamento parcial dos pagamentos. O total final e documentos ainda não fornecidos permanecem em apuração.
Fontes e documentos
- Diário Oficial de Volta Redonda, edição 1902 (27/12/2022): homologação da Concorrência 014/2022, R$ 18.131.436,55
- Prefeitura, anúncio da revitalização e orçamento inicial de 2021
- Prefeitura, reparos emergenciais e necessidade de nova licitação em 2022
- Diário Oficial, edição 2008 (23/11/2023): contratação de pavimentação provisória
- Portal da Transparência municipal: despesas por credor e empenho (consulta de 20/10/2026)
- Prefeitura, novo planejamento para a etapa final, janeiro de 2025
- Folha do Aço, relato de atrasos e reconhecimento do prefeito, 10/08/2026
- Folha do Aço, 17/10/2026: notícia sobre o 11º termo aditivo